Como usar um casaco cruzado em 2026
Porque é que o casaco cruzado veio do mar, para que serve a camisola de gola alta por baixo dele e por que razão não se desabotoa, mesmo quando apetece muito.

O fato cruzado de risca de giz que está no manequim do atelier é, para mim, a peça mais persuasiva da casa. Basta abotoá-lo e olhar para o espelho: os ombros ficam mais largos, a cintura mais estreita e o homem dois centímetros mais alto, tudo isto sem que ele tenha feito um único movimento. A única coisa que pede em troca é que se saiba usar um casaco cruzado.
O cruzado não voltou ontem. Em 2026 é outra vez a encomenda principal do outono, e a razão é simples: quando toda a gente à volta anda de camisola e de casaco impermeável, um casaco com duas filas de botões parece uma decisão. Vejamos de onde veio, como é feito e com que se usa para ficar com ar de duque e não de aluguer.
De onde veio o casaco cruzado
As duas filas de botões vieram do mar. Os cabans dos marinheiros holandeses e britânicos abotoavam de qualquer um dos lados para que a frente ficasse sempre fechada ao vento, e no fim do século XIX o princípio passou para a sobrecasaca e depois para o casaco. Nos anos trinta o fato cruzado passou a ser a peça do duque de Windsor: usava-o com ombros moles e lapela larga, e meio mundo copiou-o, Hollywood incluída.
Porque é que nos anos oitenta o cruzado se transformou no uniforme do banqueiro de Wall Street. Porque é que nos anos dois mil quase desapareceu, juntamente com a gravata. Porque é que hoje se usa com gola alta e ganga. Porque cada época tira do cruzado aquilo de que precisa: os anos oitenta precisavam de armadura, os anos dois mil de liberdade, e nós precisamos de uma peça que faça sozinha o conjunto inteiro.


Como é feito um casaco cruzado
O número que conta num cruzado é o dos botões. O clássico chama-se seis por dois: seis botões à frente, dos quais fecham dois, o do meio e o de baixo, sendo o par de cima decorativo. A versão quatro por dois é mais curta e mais discreta, e escolhem-na os homens a quem seis parecem muitos. A quatro por um, com o fecho baixo, alonga a silhueta e sempre foi apreciada em Nápoles.
A lapela de um cruzado é sempre de bico, e é larga: uma lapela estreita num cruzado dá a impressão de que o casaco encolheu na lavagem. Por dentro há um pormenor de que quase ninguém sabe: um botão pequeno do lado interior da frente, o jigger. Segura a aba interior para que o casaco não engelhe sobre o abdómen. Quando não existe, trata-se de uma imitação industrial.
E a regra que mais se quebra: um casaco cruzado não se desabotoa. Nunca, nem sentado. Aberto, perde a forma e fica a pender em dois panos. É precisamente por isso que tem de assentar com folga na cintura, para que abotoado se possa sentar e comer.


Com que se usa um casaco cruzado
Com calças de fato e gravata é a combinação mais formal que existe no guarda-roupa a seguir ao smoking. Um fato cruzado azul-escuro com camisa branca substitui o smoking sempre que o convite diz cocktail, e ganha a qualquer casaco direito numa negociação.
Com uma camisola de gola alta é o conjunto dos últimos anos, e resulta por uma razão: uma gola alta fina retira o colarinho e a gravata, e a lapela larga passa a ser a única linha do peito. A camisola tem de ser fina, de merino ou de caxemira, azul-escura, cinzenta ou preta. Uma camisola grossa por baixo de um cruzado transforma-o num caban.
Com ganga e mocassins usa-se o casaco cruzado separado das calças, e aqui conta uma coisa: a ganga direita, escura, sem desgastes, e o casaco num tecido com textura, flanela, tweed ou algodão. Um casaco de fato liso com ganga parece um fato a quem se perderam as calças.
Com um polo de malha no verão, numa esplanada ou numa noite à beira-mar, num casaco de linho com lã. O polo fica abotoado até acima e o colarinho não se põe por cima da lapela.


Tecido e assentamento
Para um fato cruzado usamos lã Vitale Barberis Canonico Super 130's e Loro Piana: lisa, de cor limpa, para que a risca ou o azul liso se leiam de longe. Para um casaco a usar separado das calças é o contrário, tecido com textura: flanela Drago, tweed, algodão com lã. A risca de giz num cruzado é um género à parte, alonga a silhueta e devolve ao casaco aquilo que ele era nos anos trinta.
O assentamento. O ombro é ligeiramente mais largo do que num casaco direito, mas sem chumaços à moda dos anos oitenta. O comprimento deve tapar os bolsos das calças, nem um centímetro mais. A manga deixa ver um centímetro e meio de punho. Abotoado, o casaco não pode repuxar sobre o abdómen nem enrugar nas costas: se repuxa, não é o botão que resolve, é o tamanho. É aqui que a roupa pronta tem mais dificuldade com o cruzado, e é por isso que ele se faz mais vezes por medida.

Os cruzados no ATELIER 23
No atelier da Avenida da Liberdade há casacos e fatos cruzados prontos em tecidos Loro Piana, Vitale Barberis Canonico e Zegna, e o cruzado por medida em qualquer corte que esteja na nossa mesa. Fazemos na nossa fábrica na Serra da Estrela, em quatro a seis semanas com uma prova. Na prova, um casaco cruzado verifica-se abotoado e sentado: só assim se vê se a cintura e o comprimento estão certos.
Se for o seu primeiro cruzado, comece pelo azul-escuro liso, seis por dois. Substitui o smoking num cocktail, o fato numa negociação e o casaco num jantar. O segundo já pode ser às riscas.
Um casaco cruzado não se desabotoa. Nunca, nem sentado.ATELIER 23
Perguntas antes de encomendar
Como se abotoa corretamente um casaco cruzado?
Fecham-se o botão do meio e o de baixo no esquema seis por dois, ou apenas um no esquema quatro por um. O casaco fica fechado mesmo quando se está sentado.
Com que se usa um casaco cruzado sem gravata?
Com uma gola alta fina de merino ou caxemira, com camisa sem gravata e um botão aberto, e no verão com um polo de malha.
Pode usar-se um casaco cruzado com ganga?
Pode, desde que o casaco seja de um tecido com textura, flanela, tweed ou algodão, e a ganga seja direita e escura. Um casaco de fato liso com ganga parece um fato sem calças.
Qual deve ser o primeiro casaco cruzado?
Azul-escuro liso, seis botões com dois a fechar, lapela de bico larga. Serve com calças de fato e com flanela cinzenta.
Quanto tempo demora um fato cruzado por medida?
Quatro a seis semanas com uma prova. Os casacos cruzados prontos do atelier ajustam-se à figura em uma a duas semanas.
Onde fica o atelier ATELIER 23?
Avenida da Liberdade 110, escritório 209, em Lisboa. Visitas mediante marcação, todos os dias.
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Mostramos os fatos e casacos cruzados do atelier, os tecidos Loro Piana, VBC e Scabal em corte, tiramos as medidas e damos-lhe um prazo. A visita demora cerca de uma hora e não obriga a nada.