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Como usar um casaco cruzado em 2026

Porque é que o casaco cruzado veio do mar, para que serve a camisola de gola alta por baixo dele e por que razão não se desabotoa, mesmo quando apetece muito.

Fato cruzado de risca de giz ATELIER 23 em manequim no atelier
Fato cruzado de risca de giz, seis botões com dois a fechar. Atelier da Avenida da Liberdade.

O fato cruzado de risca de giz que está no manequim do atelier é, para mim, a peça mais persuasiva da casa. Basta abotoá-lo e olhar para o espelho: os ombros ficam mais largos, a cintura mais estreita e o homem dois centímetros mais alto, tudo isto sem que ele tenha feito um único movimento. A única coisa que pede em troca é que se saiba usar um casaco cruzado.

O cruzado não voltou ontem. Em 2026 é outra vez a encomenda principal do outono, e a razão é simples: quando toda a gente à volta anda de camisola e de casaco impermeável, um casaco com duas filas de botões parece uma decisão. Vejamos de onde veio, como é feito e com que se usa para ficar com ar de duque e não de aluguer.

De onde veio o casaco cruzado

As duas filas de botões vieram do mar. Os cabans dos marinheiros holandeses e britânicos abotoavam de qualquer um dos lados para que a frente ficasse sempre fechada ao vento, e no fim do século XIX o princípio passou para a sobrecasaca e depois para o casaco. Nos anos trinta o fato cruzado passou a ser a peça do duque de Windsor: usava-o com ombros moles e lapela larga, e meio mundo copiou-o, Hollywood incluída.

Porque é que nos anos oitenta o cruzado se transformou no uniforme do banqueiro de Wall Street. Porque é que nos anos dois mil quase desapareceu, juntamente com a gravata. Porque é que hoje se usa com gola alta e ganga. Porque cada época tira do cruzado aquilo de que precisa: os anos oitenta precisavam de armadura, os anos dois mil de liberdade, e nós precisamos de uma peça que faça sozinha o conjunto inteiro.

Fato cruzado azul-escuro ATELIER 23 com gravata, em manequim
Fato cruzado azul-escuro ATELIER 23. Seis botões com dois a fechar, lapela de bico.
Retrato do duque de Windsor, 1934
O duque de Windsor, 1934. Foi ele que tirou o cruzado do convés e o pôs na cidade, e o corte seguiu-o.

Como é feito um casaco cruzado

O número que conta num cruzado é o dos botões. O clássico chama-se seis por dois: seis botões à frente, dos quais fecham dois, o do meio e o de baixo, sendo o par de cima decorativo. A versão quatro por dois é mais curta e mais discreta, e escolhem-na os homens a quem seis parecem muitos. A quatro por um, com o fecho baixo, alonga a silhueta e sempre foi apreciada em Nápoles.

A lapela de um cruzado é sempre de bico, e é larga: uma lapela estreita num cruzado dá a impressão de que o casaco encolheu na lavagem. Por dentro há um pormenor de que quase ninguém sabe: um botão pequeno do lado interior da frente, o jigger. Segura a aba interior para que o casaco não engelhe sobre o abdómen. Quando não existe, trata-se de uma imitação industrial.

E a regra que mais se quebra: um casaco cruzado não se desabotoa. Nunca, nem sentado. Aberto, perde a forma e fica a pender em dois panos. É precisamente por isso que tem de assentar com folga na cintura, para que abotoado se possa sentar e comer.

Smoking cruzado cor de marfim com lapela xaile, ATELIER 23
Smoking cruzado cor de marfim com lapela xaile. A versão de noite do mesmo princípio.
Sobretudo cruzado cor de camelo ATELIER 23 em manequim
Sobretudo cruzado cor de camelo. Duas filas de botões fecham a frente ao vento, que foi para isso que se inventaram.

Com que se usa um casaco cruzado

Com calças de fato e gravata é a combinação mais formal que existe no guarda-roupa a seguir ao smoking. Um fato cruzado azul-escuro com camisa branca substitui o smoking sempre que o convite diz cocktail, e ganha a qualquer casaco direito numa negociação.

Com uma camisola de gola alta é o conjunto dos últimos anos, e resulta por uma razão: uma gola alta fina retira o colarinho e a gravata, e a lapela larga passa a ser a única linha do peito. A camisola tem de ser fina, de merino ou de caxemira, azul-escura, cinzenta ou preta. Uma camisola grossa por baixo de um cruzado transforma-o num caban.

Com ganga e mocassins usa-se o casaco cruzado separado das calças, e aqui conta uma coisa: a ganga direita, escura, sem desgastes, e o casaco num tecido com textura, flanela, tweed ou algodão. Um casaco de fato liso com ganga parece um fato a quem se perderam as calças.

Com um polo de malha no verão, numa esplanada ou numa noite à beira-mar, num casaco de linho com lã. O polo fica abotoado até acima e o colarinho não se põe por cima da lapela.

Casaco azul-escuro ATELIER 23 com camisa azul-clara sem gravata
Casaco com camisa e sem gravata. A versão para o escritório que já dispensou o código de vestuário.
Casaco de xadrez castanho ATELIER 23 com gravata e lenço
Xadrez, gravata castanha, lenço. A textura que um casaco precisa de ter quando por baixo vai ganga.

Tecido e assentamento

Para um fato cruzado usamos lã Vitale Barberis Canonico Super 130's e Loro Piana: lisa, de cor limpa, para que a risca ou o azul liso se leiam de longe. Para um casaco a usar separado das calças é o contrário, tecido com textura: flanela Drago, tweed, algodão com lã. A risca de giz num cruzado é um género à parte, alonga a silhueta e devolve ao casaco aquilo que ele era nos anos trinta.

O assentamento. O ombro é ligeiramente mais largo do que num casaco direito, mas sem chumaços à moda dos anos oitenta. O comprimento deve tapar os bolsos das calças, nem um centímetro mais. A manga deixa ver um centímetro e meio de punho. Abotoado, o casaco não pode repuxar sobre o abdómen nem enrugar nas costas: se repuxa, não é o botão que resolve, é o tamanho. É aqui que a roupa pronta tem mais dificuldade com o cruzado, e é por isso que ele se faz mais vezes por medida.

Fato azul-escuro às riscas ATELIER 23 com gravata castanha, em manequim
Azul às riscas com gravata castanha. O mesmo tecido serve para o direito e para o cruzado.

Os cruzados no ATELIER 23

No atelier da Avenida da Liberdade há casacos e fatos cruzados prontos em tecidos Loro Piana, Vitale Barberis Canonico e Zegna, e o cruzado por medida em qualquer corte que esteja na nossa mesa. Fazemos na nossa fábrica na Serra da Estrela, em quatro a seis semanas com uma prova. Na prova, um casaco cruzado verifica-se abotoado e sentado: só assim se vê se a cintura e o comprimento estão certos.

Se for o seu primeiro cruzado, comece pelo azul-escuro liso, seis por dois. Substitui o smoking num cocktail, o fato numa negociação e o casaco num jantar. O segundo já pode ser às riscas.

Um casaco cruzado não se desabotoa. Nunca, nem sentado.ATELIER 23

Perguntas antes de encomendar

Como se abotoa corretamente um casaco cruzado?
Fecham-se o botão do meio e o de baixo no esquema seis por dois, ou apenas um no esquema quatro por um. O casaco fica fechado mesmo quando se está sentado.

Com que se usa um casaco cruzado sem gravata?
Com uma gola alta fina de merino ou caxemira, com camisa sem gravata e um botão aberto, e no verão com um polo de malha.

Pode usar-se um casaco cruzado com ganga?
Pode, desde que o casaco seja de um tecido com textura, flanela, tweed ou algodão, e a ganga seja direita e escura. Um casaco de fato liso com ganga parece um fato sem calças.

Qual deve ser o primeiro casaco cruzado?
Azul-escuro liso, seis botões com dois a fechar, lapela de bico larga. Serve com calças de fato e com flanela cinzenta.

Quanto tempo demora um fato cruzado por medida?
Quatro a seis semanas com uma prova. Os casacos cruzados prontos do atelier ajustam-se à figura em uma a duas semanas.

Onde fica o atelier ATELIER 23?
Avenida da Liberdade 110, escritório 209, em Lisboa. Visitas mediante marcação, todos os dias.

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Mostramos os fatos e casacos cruzados do atelier, os tecidos Loro Piana, VBC e Scabal em corte, tiramos as medidas e damos-lhe um prazo. A visita demora cerca de uma hora e não obriga a nada.

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1269-046 Lisboa
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Com os melhores cumprimentos, Andrey Kostenko
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