ATELIER 23 · Jornal · Guarda-roupa

O smoking. A peça que se compra uma vez

Como um casaco para fumar sobreviveu ao próprio hábito de fumar, porque é que o duque de Windsor pintou a noite de azul e por que razão o smoking do fim do ano se encomenda em outubro.

Smoking preto de lapela de bico e smoking cor de marfim de lapela xaile, ATELIER 23
Smoking preto de lapela de bico e smoking cor de marfim de lapela xaile. Ambos em lã Vitale Barberis Canonico Super 130's. Atelier da Avenida da Liberdade.

Na primeira semana de setembro pusemos em obra o primeiro smoking da temporada. Lã preta, lapela de bico, calças com ajustes laterais em vez de cinto. O cliente chegou com um convite para dezembro onde, ao canto e em letra pequena, estava escrito black tie, e com a pergunta honesta sobre o que aquilo queria dizer. Compreendo-o. O smoking por medida acontece na vida da maioria dos homens uma vez em cada poucos anos, e todas as vezes parece a primeira. Fizemos centenas de fatos em doze anos e muitos menos smokings, e há um detalhe curioso nisto: dos smokings toda a gente se lembra.

A explicação é simples. Num fato trabalha-se. Num smoking festeja-se, rodeado de pessoas que naquela noite também não têm nada a provar. O smoking aparece num casamento e numa ceia de fim de ano, ou seja, exatamente nas noites que acabam no álbum de família. Por isso o fazemos com tecidos que têm biografia própria: a Scabal vestiu o Bond de GoldenEye em 1995, e o veludo do casaco de Daniel Craig na estreia de No Time to Die em 2021 saiu do mesmo tear. Um smoking assim compra-se uma vez e usa-se vinte anos.

Como um casaco para fumar sobreviveu ao fumo

Em 1865 o príncipe de Gales, futuro Eduardo VII, encomendou na Henry Poole, em Savile Row, um casaco de noite curto para substituir o fraque. Servia para depois do jantar em Sandringham, na sala de fumo, para que o fraque não ficasse a cheirar a charuto. Daí vem a palavra que usamos: em França, em Portugal e em boa parte da Europa continental chama-se le smoking, embora os próprios ingleses digam dinner jacket e franzam ligeiramente o nariz ao ouvir smoking.

Para a América foi em 1886. O milionário nova-iorquino James Potter esteve com o príncipe, mandou fazer um igual na mesma casa e levou-o para o clube de campo de Tuxedo Park, a norte de Nova Iorque. O resto é lenda: no baile de outono do clube, o jovem Griswold Lorillard apareceu de casaco sem abas, o jornal local escreveu que o lugar dele era num colete de forças, e um ano depois o clube inteiro vestia-se assim. Ficou tuxedo na América, dinner jacket em Londres, smoking entre nós. A peça é a mesma; só o nome dá discussão.

Desde então o smoking sobreviveu a Eduardo, às salas de fumo, à Lei Seca, a duas guerras, à discoteca, aos guarda-roupas de James Bond, aos salões de noivos dos anos noventa e até às sessões fotográficas com barba de três dias. De todas as peças de noite do século XIX, é a única que chegou inteira aos nossos dias.

Desenho de 1888 de um homem com o primeiro smoking, então chamado dress sack
1888. Uma revista americana ainda lhe chama dress sack: o casaco de noite sem abas.
Marlene Dietrich de cartola e laço, Marrocos, 1930
Marlene Dietrich, «Marrocos», 1930. Cartola e laço numa mulher: nessa noite o smoking deixou de ser só masculino.

Porque é que o smoking não morreu

Funciona aqui a mesma regra do sobretudo. Quanto menos peças formais existem no guarda-roupa, mais peso ganha a que sobrou. Quando os homens andavam de fato todos os dias, o smoking era apenas mais um fato, um pouco mais escuro. Agora que o escritório dispensou a gravata e depois o casaco, o smoking ficou a ser o último lugar onde a noite é diferente do dia. Um convite com a indicação black tie tornou-se uma espécie de presente raro: pelo menos uma vez por ano pode vestir-se a sério.

Porque é que o duque de Windsor mandava fazer os smokings em azul meia-noite nos anos trinta. Porque é que Marlene Dietrich entrou em Marrocos, em 1930, de fraque e cartola, e a sala aceitou. Porque é que Yves Saint Laurent, em 1966, chamou ao fato de calças feminino precisamente le smoking. Porque o smoking, desde o primeiro dia, quebrou uma regra para salvar todas as outras. O azul, à luz elétrica, parece mais preto do que o preto; Dietrich de fraque parecia mais feminina do que com qualquer vestido; e Saint Laurent foi pedir emprestada aos homens a peça mais masculina que eles tinham.

Não acompanho quem diz que o smoking está ultrapassado. Basta olhar para a passadeira de qualquer grande cerimónia dos últimos cinco anos: as extravagâncias são cada vez menos. Os atores jovens apresentam-se como se apresentavam os avós, e essa é, a meu ver, a avaliação mais exata que a peça pode receber.

O smoking foi inventado para se fumar depois do jantar. Fumar deixou de ser obrigatório há muito tempo.ATELIER 23

Smoking branco com laço preto, 1969
Smoking branco com laço preto, 1969. A versão de verão do código, que Lisboa entende melhor do que Londres.

Com que tecidos se faz um smoking

Um smoking começa pelo tecido, e aqui a escolha é mais curta do que num fato, mas mais exigente. O clássico é a barateia, uma lã de ligamento miúdo e granulado que quase não brilha e segura bem a lapela. Fazemos em lã Vitale Barberis Canonico Super 130's, de uma fábrica que trabalha em Biella desde 1663, e em mohair com lã da Dormeuil, casa parisiense de 1842. O mohair é pelo da cabra de angorá: fibra dura, com um brilho seco discreto, e tem duas virtudes pelas quais Hollywood o adorou nos anos cinquenta. Mantém a forma até de madrugada e não amarrota dentro do carro, o que num país de casamentos com meia hora de estrada entre a igreja e a quinta não é detalhe pequeno.

A cor. O preto é obrigatório se o smoking for único. O azul meia-noite aconselho a quem já tem preto ou a quem é muito fotografado: com flash, a lã preta puxa para o cinzento, enquanto o azul meia-noite continua profundo. Foi exatamente isto que o duque de Windsor reparou há noventa anos. O smoking cor de marfim fazemo-lo para o verão e para o sul, e em Portugal isso quer dizer quase toda a época de casamentos: uma quinta no Alentejo em julho, um jantar num barco, o Algarve em agosto, a Madeira no fim do ano.

O veludo é caso à parte. O casaco de veludo azul-escuro da Scabal com lapela xaile de cetim está neste momento no atelier, e usa-se onde o black tie completo seria demasiado sério: em casa, em jantares fechados, na noite de fim de ano em casa de amigos.

Smoking cruzado cor de marfim com lapela xaile, ATELIER 23
Marfim, cruzado, lapela xaile. Para um casamento no sul e para as festas passadas no calor.
Casaco de veludo azul-escuro Scabal com lapela de cetim, ATELIER 23
Veludo azul-escuro Scabal, lapela de cetim. Para um jantar de amigos onde o black tie seria demasiado.

As decisões que se tomam no atelier

Encomendar um smoking não é escolher entre modelos de uma montra. É responder a quatro perguntas, e nenhuma delas tem uma resposta certa igual para toda a gente.

Bico ou xaile. A lapela de bico levanta o ombro e alonga quem é baixo ou largo. O xaile arredonda e suaviza, e é a escolha natural para um rosto anguloso e para o veludo. Experimentamos as duas ao espelho antes de decidir, porque a diferença vê-se em dois segundos e explica-se mal por palavras.

Cetim ou gorgorão. O cetim liso reflete a luz e é o que a fotografia espera. O gorgorão canelado absorve-a e envelhece melhor: risca-se menos e não ganha brilhos onde o casaco roça. Quem veste o smoking duas vezes por ano costuma preferir cetim; quem o veste dez, gorgorão.

Grande plano da lapela de bico coberta a cetim de um smoking preto
Lapela de bico coberta a cetim. Smoking preto em lã VBC Super 130's.
Calças de smoking com ajustes laterais e galão de seda na costura
Ajustes laterais em vez de cinto e galão de seda na costura. Passadores não há, nem deve haver.

Um botão, cruzado ou colete. O direito de um botão é a referência e serve quase toda a gente. O cruzado dá cintura a quem não a tem e dispensa faixa. O colete resolve o cós para quem não gosta de faixa nem de cruzado, e é a mais discreta das três soluções.

Ajustes laterais ou suspensórios. Os ajustes laterais mantêm a calça no sítio sem nada por baixo do casaco. Os suspensórios deixam-na cair a direito e são melhores para quem passa três horas sentado à mesa. Não se usam os dois ao mesmo tempo.

Estas são as escolhas. O que o código exige, e não se escolhe, está reunido nas vinte e uma regras do black tie.

Smoking ou fato escuro

É a pergunta que mais ouço. Se o convite diz black tie, a resposta é uma só, e é o smoking; um fato escuro com gravata preta, nessa noite, parece um pedido de desculpa. Se diz cocktail, ou não diz nada, um fato azul-escuro com camisa branca e sem gravata fica melhor do que um smoking, porque estar vestido a mais é pior do que estar vestido a menos. Casamento à noite, aniversário grande num restaurante, jantar de fim de ano de uma empresa numa boa sala, entrega de prémios, gala de uma instituição: tudo isso é smoking. Festa de empresa num armazém com DJ: fato, ou melhor ainda, uma camisola de caxemira.

Há ainda uma regra de que toda a gente se esquece: o smoking veste-se depois das seis da tarde. Às quatro, num casamento de dia, parece um erro de código, por muito bem cortado que esteja. É por isso que num casamento de verão o noivo anda de fato de três peças na cerimónia e só muda para smoking ao jantar.

Smoking preto de lapela de bico ATELIER 23
Preto, lapela de bico, um botão. O primeiro smoking de um homem deve ser este.
Smoking cruzado cor de marfim com lapela xaile, ATELIER 23, 2026
O nosso smoking cor de marfim, 2026. A mesma lapela xaile meio século depois.

Smoking por medida: como funciona

A primeira conversa demora cerca de uma hora. Vemos os tecidos em corte, porque a barateia e o mohair têm de se tocar, tiramos as medidas e falamos de onde e com quem vai usar o smoking: a lapela para um casamento e a lapela para uma gala podem não ser a mesma. Escolhemos a seda da lapela em função do tecido, os botões, o forro. Os botões são, já agora, a etapa mais demorada: os homens escolhem botões durante mais tempo do que escolhem tecido.

Escolha de botões e tecido para um smoking no atelier ATELIER 23
A carta de botões e o corte de tecido em cima da mesa. A etapa mais longa da primeira conversa.

Depois o corte segue para a nossa fábrica na Serra da Estrela, nas montanhas do interior, onde se fazem os nossos fatos e os nossos sobretudos. A primeira prova é umas semanas mais tarde: acertam-se ombros, comprimento de manga e assentamento das calças. Depois vem o smoking acabado. Todo o percurso leva quatro a seis semanas, e aqui volto a ser chato: o smoking para o fim do ano encomenda-se em outubro. Quem chega no fim de novembro recebe-o em janeiro, e janeiro é justamente o mês em que um smoking faz menos falta.

1 horaPrimeira conversa: tecido, seda da lapela, botões, medidas
3–4 sem.Primeira prova: ombros, manga, assentamento das calças
6–8 sem.O smoking acabado no cabide do atelier
1 vezO número de vezes que se compra um bom smoking

Se o prazo apertar, temos smokings prontos no atelier: preto de lapela de bico, marfim de lapela xaile e veludo azul-escuro. Os arranjos à figura estão incluídos no preço e demoram de uma a duas semanas. Com o aluguer não vale a pena comparar: um smoking alugado assenta em toda a gente da mesma maneira, ou seja, não assenta em ninguém.

Um smoking para vinte anos

O smoking envelhece mais devagar do que qualquer outra peça, porque a moda quase não lhe chega. A largura da lapela e o assentamento das calças mudam um centímetro em dez anos; o resto está parado desde 1886. O primeiro smoking do nosso livro de encomendas está datado de novembro de 2018, tecido Scabal, e se o trouxessem hoje ao atelier não haveria nada a mudar. Uma limpeza por época, cabide largo, capa de tecido, e de cinco em cinco anos trocamos o forro.

Um bom smoking compra-se uma vez.

Punho de um smoking preto com botões forrados a cetim
Os botões do punho são forrados com o mesmo cetim da lapela.
Punho de um smoking cor de marfim com botões forrados
Marfim, punho. Os botões são forrados na cor do tecido.

Os cortes para as peças de noite já estão no atelier: barateia preta e azul meia-noite, mohair com lã. Cada corte dá para alguns smokings e os seguintes só chegam na primavera. Estamos em setembro, e a época de casamentos volta em maio.

Perguntas antes de encomendar

Quanto tempo demora um smoking por medida?
Quatro a seis semanas do tecido ao smoking acabado, com uma prova pelo meio. Para chegar a tempo das festas de fim de ano, a encomenda deve ser feita em outubro; para a época de casamentos, em fevereiro ou março.

Que tecidos usam nos smokings?
Barateia e Super 130's da Vitale Barberis Canonico, mohair com lã da Dormeuil, veludo Scabal. Mostramos todos os cortes no atelier e cobrimos as lapelas a cetim ou a gorgorão.

Quanto custa um smoking por medida?
Os smokings por medida começam nos 1 950 euros e o preço final depende do tecido. Há também smokings prontos no atelier, com o preço indicado no catálogo e os arranjos à figura incluídos.

Qual é a diferença entre um smoking e um fato preto?
Lapelas de seda, de bico ou xaile, um único botão forrado, calças com galão de seda e sem cinto, laço em vez de gravata. Um fato preto com gravata preta não cumpre um convite com black tie.

De que cor deve ser o primeiro smoking?
Preto. Azul meia-noite se já tiver preto ou se for muito fotografado com flash. Marfim para o verão e para os países quentes.

Onde fica o atelier ATELIER 23?
Avenida da Liberdade 110, escritório 209, em Lisboa. Visitas mediante marcação, todos os dias.

No atelier neste momento: Black Tuxedo · Ivory Shawl Tuxedo · Velvet Tuxedo

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Mostramos a barateia, o mohair e o veludo em corte, tiramos as medidas e damos-lhe um prazo. Os smokings prontos estão em fatos e o processo está descrito em medida por medida. A visita demora cerca de uma hora e não obriga a nada.

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Avenida da Liberdade 110, escritório 209
1269-046 Lisboa
Visitas mediante marcação · +351 912 204 778
Com os melhores cumprimentos, Andrey Kostenko
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