O smoking. A peça que se compra uma vez
Como um casaco para fumar sobreviveu ao próprio hábito de fumar, porque é que o duque de Windsor pintou a noite de azul e por que razão o smoking do fim do ano se encomenda em outubro.

Na primeira semana de setembro pusemos em obra o primeiro smoking da temporada. Lã preta, lapela de bico, calças com ajustes laterais em vez de cinto. O cliente chegou com um convite para dezembro onde, ao canto e em letra pequena, estava escrito black tie, e com a pergunta honesta sobre o que aquilo queria dizer. Compreendo-o. O smoking por medida acontece na vida da maioria dos homens uma vez em cada poucos anos, e todas as vezes parece a primeira. Fizemos centenas de fatos em doze anos e muitos menos smokings, e há um detalhe curioso nisto: dos smokings toda a gente se lembra.
A explicação é simples. Num fato trabalha-se. Num smoking festeja-se, rodeado de pessoas que naquela noite também não têm nada a provar. O smoking aparece num casamento e numa ceia de fim de ano, ou seja, exatamente nas noites que acabam no álbum de família. Por isso o fazemos com tecidos que têm biografia própria: a Scabal vestiu o Bond de GoldenEye em 1995, e o veludo do casaco de Daniel Craig na estreia de No Time to Die em 2021 saiu do mesmo tear. Um smoking assim compra-se uma vez e usa-se vinte anos.
Como um casaco para fumar sobreviveu ao fumo
Em 1865 o príncipe de Gales, futuro Eduardo VII, encomendou na Henry Poole, em Savile Row, um casaco de noite curto para substituir o fraque. Servia para depois do jantar em Sandringham, na sala de fumo, para que o fraque não ficasse a cheirar a charuto. Daí vem a palavra que usamos: em França, em Portugal e em boa parte da Europa continental chama-se le smoking, embora os próprios ingleses digam dinner jacket e franzam ligeiramente o nariz ao ouvir smoking.
Para a América foi em 1886. O milionário nova-iorquino James Potter esteve com o príncipe, mandou fazer um igual na mesma casa e levou-o para o clube de campo de Tuxedo Park, a norte de Nova Iorque. O resto é lenda: no baile de outono do clube, o jovem Griswold Lorillard apareceu de casaco sem abas, o jornal local escreveu que o lugar dele era num colete de forças, e um ano depois o clube inteiro vestia-se assim. Ficou tuxedo na América, dinner jacket em Londres, smoking entre nós. A peça é a mesma; só o nome dá discussão.
Desde então o smoking sobreviveu a Eduardo, às salas de fumo, à Lei Seca, a duas guerras, à discoteca, aos guarda-roupas de James Bond, aos salões de noivos dos anos noventa e até às sessões fotográficas com barba de três dias. De todas as peças de noite do século XIX, é a única que chegou inteira aos nossos dias.


Porque é que o smoking não morreu
Funciona aqui a mesma regra do sobretudo. Quanto menos peças formais existem no guarda-roupa, mais peso ganha a que sobrou. Quando os homens andavam de fato todos os dias, o smoking era apenas mais um fato, um pouco mais escuro. Agora que o escritório dispensou a gravata e depois o casaco, o smoking ficou a ser o último lugar onde a noite é diferente do dia. Um convite com a indicação black tie tornou-se uma espécie de presente raro: pelo menos uma vez por ano pode vestir-se a sério.
Porque é que o duque de Windsor mandava fazer os smokings em azul meia-noite nos anos trinta. Porque é que Marlene Dietrich entrou em Marrocos, em 1930, de fraque e cartola, e a sala aceitou. Porque é que Yves Saint Laurent, em 1966, chamou ao fato de calças feminino precisamente le smoking. Porque o smoking, desde o primeiro dia, quebrou uma regra para salvar todas as outras. O azul, à luz elétrica, parece mais preto do que o preto; Dietrich de fraque parecia mais feminina do que com qualquer vestido; e Saint Laurent foi pedir emprestada aos homens a peça mais masculina que eles tinham.
Não acompanho quem diz que o smoking está ultrapassado. Basta olhar para a passadeira de qualquer grande cerimónia dos últimos cinco anos: as extravagâncias são cada vez menos. Os atores jovens apresentam-se como se apresentavam os avós, e essa é, a meu ver, a avaliação mais exata que a peça pode receber.
O smoking foi inventado para se fumar depois do jantar. Fumar deixou de ser obrigatório há muito tempo.ATELIER 23

Com que tecidos se faz um smoking
Um smoking começa pelo tecido, e aqui a escolha é mais curta do que num fato, mas mais exigente. O clássico é a barateia, uma lã de ligamento miúdo e granulado que quase não brilha e segura bem a lapela. Fazemos em lã Vitale Barberis Canonico Super 130's, de uma fábrica que trabalha em Biella desde 1663, e em mohair com lã da Dormeuil, casa parisiense de 1842. O mohair é pelo da cabra de angorá: fibra dura, com um brilho seco discreto, e tem duas virtudes pelas quais Hollywood o adorou nos anos cinquenta. Mantém a forma até de madrugada e não amarrota dentro do carro, o que num país de casamentos com meia hora de estrada entre a igreja e a quinta não é detalhe pequeno.
A cor. O preto é obrigatório se o smoking for único. O azul meia-noite aconselho a quem já tem preto ou a quem é muito fotografado: com flash, a lã preta puxa para o cinzento, enquanto o azul meia-noite continua profundo. Foi exatamente isto que o duque de Windsor reparou há noventa anos. O smoking cor de marfim fazemo-lo para o verão e para o sul, e em Portugal isso quer dizer quase toda a época de casamentos: uma quinta no Alentejo em julho, um jantar num barco, o Algarve em agosto, a Madeira no fim do ano.
O veludo é caso à parte. O casaco de veludo azul-escuro da Scabal com lapela xaile de cetim está neste momento no atelier, e usa-se onde o black tie completo seria demasiado sério: em casa, em jantares fechados, na noite de fim de ano em casa de amigos.


As decisões que se tomam no atelier
Encomendar um smoking não é escolher entre modelos de uma montra. É responder a quatro perguntas, e nenhuma delas tem uma resposta certa igual para toda a gente.
Bico ou xaile. A lapela de bico levanta o ombro e alonga quem é baixo ou largo. O xaile arredonda e suaviza, e é a escolha natural para um rosto anguloso e para o veludo. Experimentamos as duas ao espelho antes de decidir, porque a diferença vê-se em dois segundos e explica-se mal por palavras.
Cetim ou gorgorão. O cetim liso reflete a luz e é o que a fotografia espera. O gorgorão canelado absorve-a e envelhece melhor: risca-se menos e não ganha brilhos onde o casaco roça. Quem veste o smoking duas vezes por ano costuma preferir cetim; quem o veste dez, gorgorão.


Um botão, cruzado ou colete. O direito de um botão é a referência e serve quase toda a gente. O cruzado dá cintura a quem não a tem e dispensa faixa. O colete resolve o cós para quem não gosta de faixa nem de cruzado, e é a mais discreta das três soluções.
Ajustes laterais ou suspensórios. Os ajustes laterais mantêm a calça no sítio sem nada por baixo do casaco. Os suspensórios deixam-na cair a direito e são melhores para quem passa três horas sentado à mesa. Não se usam os dois ao mesmo tempo.
Estas são as escolhas. O que o código exige, e não se escolhe, está reunido nas vinte e uma regras do black tie.
Smoking ou fato escuro
É a pergunta que mais ouço. Se o convite diz black tie, a resposta é uma só, e é o smoking; um fato escuro com gravata preta, nessa noite, parece um pedido de desculpa. Se diz cocktail, ou não diz nada, um fato azul-escuro com camisa branca e sem gravata fica melhor do que um smoking, porque estar vestido a mais é pior do que estar vestido a menos. Casamento à noite, aniversário grande num restaurante, jantar de fim de ano de uma empresa numa boa sala, entrega de prémios, gala de uma instituição: tudo isso é smoking. Festa de empresa num armazém com DJ: fato, ou melhor ainda, uma camisola de caxemira.
Há ainda uma regra de que toda a gente se esquece: o smoking veste-se depois das seis da tarde. Às quatro, num casamento de dia, parece um erro de código, por muito bem cortado que esteja. É por isso que num casamento de verão o noivo anda de fato de três peças na cerimónia e só muda para smoking ao jantar.


Smoking por medida: como funciona
A primeira conversa demora cerca de uma hora. Vemos os tecidos em corte, porque a barateia e o mohair têm de se tocar, tiramos as medidas e falamos de onde e com quem vai usar o smoking: a lapela para um casamento e a lapela para uma gala podem não ser a mesma. Escolhemos a seda da lapela em função do tecido, os botões, o forro. Os botões são, já agora, a etapa mais demorada: os homens escolhem botões durante mais tempo do que escolhem tecido.

Depois o corte segue para a nossa fábrica na Serra da Estrela, nas montanhas do interior, onde se fazem os nossos fatos e os nossos sobretudos. A primeira prova é umas semanas mais tarde: acertam-se ombros, comprimento de manga e assentamento das calças. Depois vem o smoking acabado. Todo o percurso leva quatro a seis semanas, e aqui volto a ser chato: o smoking para o fim do ano encomenda-se em outubro. Quem chega no fim de novembro recebe-o em janeiro, e janeiro é justamente o mês em que um smoking faz menos falta.
Se o prazo apertar, temos smokings prontos no atelier: preto de lapela de bico, marfim de lapela xaile e veludo azul-escuro. Os arranjos à figura estão incluídos no preço e demoram de uma a duas semanas. Com o aluguer não vale a pena comparar: um smoking alugado assenta em toda a gente da mesma maneira, ou seja, não assenta em ninguém.
Um smoking para vinte anos
O smoking envelhece mais devagar do que qualquer outra peça, porque a moda quase não lhe chega. A largura da lapela e o assentamento das calças mudam um centímetro em dez anos; o resto está parado desde 1886. O primeiro smoking do nosso livro de encomendas está datado de novembro de 2018, tecido Scabal, e se o trouxessem hoje ao atelier não haveria nada a mudar. Uma limpeza por época, cabide largo, capa de tecido, e de cinco em cinco anos trocamos o forro.
Um bom smoking compra-se uma vez.


Os cortes para as peças de noite já estão no atelier: barateia preta e azul meia-noite, mohair com lã. Cada corte dá para alguns smokings e os seguintes só chegam na primavera. Estamos em setembro, e a época de casamentos volta em maio.
Perguntas antes de encomendar
Quanto tempo demora um smoking por medida?
Quatro a seis semanas do tecido ao smoking acabado, com uma prova pelo meio. Para chegar a tempo das festas de fim de ano, a encomenda deve ser feita em outubro; para a época de casamentos, em fevereiro ou março.
Que tecidos usam nos smokings?
Barateia e Super 130's da Vitale Barberis Canonico, mohair com lã da Dormeuil, veludo Scabal. Mostramos todos os cortes no atelier e cobrimos as lapelas a cetim ou a gorgorão.
Quanto custa um smoking por medida?
Os smokings por medida começam nos 1 950 euros e o preço final depende do tecido. Há também smokings prontos no atelier, com o preço indicado no catálogo e os arranjos à figura incluídos.
Qual é a diferença entre um smoking e um fato preto?
Lapelas de seda, de bico ou xaile, um único botão forrado, calças com galão de seda e sem cinto, laço em vez de gravata. Um fato preto com gravata preta não cumpre um convite com black tie.
De que cor deve ser o primeiro smoking?
Preto. Azul meia-noite se já tiver preto ou se for muito fotografado com flash. Marfim para o verão e para os países quentes.
Onde fica o atelier ATELIER 23?
Avenida da Liberdade 110, escritório 209, em Lisboa. Visitas mediante marcação, todos os dias.
No atelier neste momento: Black Tuxedo · Ivory Shawl Tuxedo · Velvet Tuxedo
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Mostramos a barateia, o mohair e o veludo em corte, tiramos as medidas e damos-lhe um prazo. Os smokings prontos estão em fatos e o processo está descrito em medida por medida. A visita demora cerca de uma hora e não obriga a nada.