Como Encomendar a Sua Primeira Camisa Feita à Medida: Guia Completo
O que pensar antes da consulta, o que acontece durante e o que se decide na prova. Um guia para quem vai encomendar a primeira camisa à medida.

Uma camisa feita à medida é provavelmente o item mais fácil de encomendar em alfaiataria — e o que mais frequentemente as pessoas adiam por não saberem por onde começar. Este guia cobre o processo completo, da primeira conversa à entrega.
Antes da consulta
Uma camisa à medida começa antes de se subir ao atelier, e começa com três perguntas que não exigem resposta definitiva.
Para que serve. Uma camisa de trabalho, uma camisa para usar com fato e uma camisa de cerimónia não levam o mesmo tecido, nem o mesmo colarinho, nem o mesmo punho. Não é preciso decidir antes de vir, mas saber qual das três é a principal encurta a conversa para metade.
Que cor. O branco é a mais versátil e é quase sempre a primeira. O azul-claro é a segunda. O linho branco é para o verão português e amarrota de propósito. As riscas e os xadrezes vêm depois, quando já existe um molde confirmado e se pode arriscar sem risco.
Quantas. A primeira serve para calibrar o molde. Depois de entregue e aprovada, o molde fica guardado com o seu nome e as seguintes fazem-se sem prova. É por isso que a maior parte dos clientes encomenda uma da primeira vez e três da segunda.
Traga uma camisa que goste de usar, mesmo que não assente bem. Serve para apontar com o dedo onde aperta e onde sobra, o que é sempre mais claro do que descrever por palavras.


A consulta
Demora vinte a quarenta minutos e tem três partes que se atravessam umas às outras.
As medidas são doze a quinze: pescoço, ombro, peito, cintura, anca, comprimento das costas, comprimento da manga e perímetro do braço. A fita é a parte rápida. A parte lenta é olhar: para a largura dos ombros, para a postura, para a assimetria que quase toda a gente tem e quase ninguém sabe que tem. Uma camisa que não repuxa nas costas quando se conduz sai daí e não da fita.
O tecido escolhe-se a seguir, a partir dos livros que temos em cima da mesa: Albini, Thomas Mason e Leggiuno, todos italianos, do algodão de fio duplo à popelina fina e ao oxford. O peso decide o comportamento: popelina para o uso diário, zefir ou pinpoint para uma mão mais macia, oxford para o fim de semana, linho para julho e agosto.
Por fim, os pormenores de construção: colarinho, punho, número de botões, bolso ou nenhum, costas lisas ou com pregas. São mais decisões do que parecem, e estão todas explicadas, uma a uma, em as 23 decisões de uma camisa à medida.

A prova
Na primeira encomenda há sempre prova, e faz-se com a camisa ainda por acabar. É de propósito: assim os acertos entram sem desmanchar trabalho já fechado.
O que se verifica é curto e é sempre o mesmo. O colarinho fecha sem apertar, com espaço para um dedo. A gola assenta plana e não se afasta do pescoço quando anda. A costura do ombro cai no ombro e não à frente nem atrás dele. A manga acaba no osso do pulso, para deixar aparecer meio centímetro por baixo da manga do casaco. E o peito tem folga suficiente para cruzar os braços sem que a frente repuxe.
Marcam-se os acertos com giz, a camisa é acabada e entregue na semana seguinte.
Se alguma coisa precisar de acerto
Acontece, sobretudo na primeira. Uma camisa à medida tem margem de costura para crescer meio número no peito e no pescoço, e o comprimento da manga acerta-se sem desmanchar o punho. Traga-a. Nos primeiros meses depois da entrega, os acertos do molde estão incluídos: não é cortesia, é a maneira como o molde se fecha.
O que não se corrige é o tecido escolhido a pensar na ocasião errada. Um popelina fino num homem que usa a camisa cinco dias por semana gasta-se no colarinho ao fim de dois anos; um oxford com fato é sempre um oxford com fato. É por isso que a conversa sobre função vem antes da conversa sobre cor.
A segunda encomenda
Depois de a primeira estar aprovada, o molde fica guardado com o seu nome, a data e as notas da prova. As encomendas seguintes fazem-se por mensagem: escolhe-se o tecido de uma fotografia dos livros ou de uma referência, confirma-se o colarinho e o punho, e a camisa segue para a morada que indicar. Não é preciso voltar a Lisboa.
Recomendamos encomendar duas ou três de cada vez a partir daí. O molde é o mesmo, o corte faz-se de uma assentada e o custo por camisa desce. E convém repetir a prova de cinco em cinco anos, ou sempre que o peso mude de forma apreciável, porque o molde é do corpo que mediu e não do corpo que tinha.



Perguntas antes de encomendar
O que devo levar à primeira consulta?
Uma camisa que goste de usar, mesmo que não assente bem. Serve de referência para falarmos de colarinho, punho e folga.
Quantas medidas são precisas?
Doze a quinze, mais o registo da postura. Pescoço, ombro, peito, cintura, anca, comprimento de manga e perímetro do braço são as principais.
Há prova?
Na primeira encomenda, sim. Depois de o molde estar confirmado, as repetições fazem-se sem prova.
Quanto tempo demora?
Quatro a seis semanas para a primeira camisa. As seguintes saem mais depressa.
Quantas camisas encomendar de uma vez?
Duas ou três. O molde é o mesmo e o custo por camisa desce a partir da segunda.
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