ATELIER 23 · Jornal · Guarda-roupa

O sobretudo. A única peça que se vê por inteiro

Porque é que numa cidade que quase não tem inverno o sobretudo é a peça mais visível do guarda-roupa, quantas cabras são precisas para um casaco de caxemira e por que razão se encomenda em setembro.

Sobretudo cruzado cor de camelo ATELIER 23
Sobretudo cruzado em lã cor de camelo. Atelier da Avenida da Liberdade.

Em janeiro um cliente veio buscar um caban azul-escuro. Tecido Caccioppoli de Nápoles, double face: azul intenso do lado de fora, castanho-escuro do avesso, lã com dez por cento de caxemira. Por baixo da gola, dois botões para fechar o pescoço quando o vento sobe do rio ou quando se aterra em Milão em janeiro. Tive-o nas mãos antes da entrega e dei por mim a pensar que fizemos muitos mais fatos do que casacos ao longo destes anos, e no entanto são os casacos que ficam na memória.

A explicação é simples. O fato veem-no os colegas, o sobretudo por medida vê-o a cidade inteira. É a única peça do guarda-roupa masculino que um desconhecido vê por inteiro, da gola à bainha, antes de você ter dito bom dia. Tudo o resto está tapado ou meio aberto. O sobretudo trabalha por si a cem metros de distância. É por isso que lhe damos mais atenção do que a qualquer outra coisa que fazemos.

Lisboa não é uma cidade fria. É por isso que o sobretudo conta

Quem vem de fora ri-se quando um lisboeta diz que está frio em janeiro. Doze graus não é frio em lado nenhum da Europa. Só que doze graus com humidade alta, vento do Atlântico e casas construídas para o verão dão uma sensação térmica que qualquer sueco reconhece. O inverno português é curto, molhado e mais desconfortável do que os números sugerem, e tem uma consequência prática: aqui ninguém precisa de cinco casacos. Precisa de um que esteja certo.

E depois há a outra metade da vida dos nossos clientes, que é passada fora. Londres em novembro, Milão em janeiro, Zurique em fevereiro, uma semana no Douro quando gela de manhã. Um sobretudo de lã com caxemira resolve Lisboa e resolve o norte da Europa. É a peça com o maior alcance geográfico que um homem pode ter.

Caban azul-escuro cruzado ATELIER 23 em lã double face Caccioppoli
O tal caban. Lã double face Caccioppoli com caxemira, azul por fora, castanho-escuro por dentro. Janeiro de 2026.

Porque é que o sobretudo voltou

Nos últimos vinte anos o guarda-roupa masculino perdeu primeiro a gravata, depois o casaco obrigatório, e a certa altura até as calças com vinco. O sobretudo ficou. Funciona aqui uma regra antiga: quanto menos peças formais um homem tem em cima, mais peso ganha a que sobrou. Quando toda a gente andava de fato, o sobretudo era só a camada de cima. Quando por baixo há uma camisola e umas calças de ganga, o sobretudo passa a ser o único sítio onde ainda se vê corte.

Ele sobreviveu ao redingote, à capa, ao macintosh, ao duffle coat de Dunquerque, à gabardina de couro dos anos noventa e, ao que parece, também ao código de vestuário das videochamadas. Porque é que o chesterfield, desenhado para um conde nos anos quarenta do século XIX, se continua a fazer quase sem alterações. Porque é que o caban dos marinheiros holandeses é usado por gente que nunca pisou um convés. Porque é que a trench, cortada para as trincheiras da Primeira Guerra, se tornou a peça mais pacífica que existe. Porque as três foram primeiro necessárias e só depois bonitas. Uma forma que nasce de um problema não envelhece.

O fato veem-no os colegas. O sobretudo vê-o a cidade.ATELIER 23

Vinte cabras para um sobretudo

Aqui começa a parte deste trabalho de que mais gosto. A cabra de caxemira vive em planalto de alta montanha, onde o inverno chega aos quarenta graus negativos, e dá por ano cerca de cento e cinquenta gramas de penugem fina quando é penteada. Um sobretudo leva a penugem de cerca de duas dezenas de cabras. A fibra tem à volta de quinze mícrones de espessura; um cabelo humano tem cinco vezes mais. Daí o paradoxo central da caxemira: quanto mais fina é, mais aquece.

Trabalhamos com quatro casas. Loro Piana, do Piemonte, fundada em 1924, caxemira pura e tecidos com Storm System, uma membrana fina do avesso que faz o casaco atravessar uma tarde de chuva sem se encharcar. Dormeuil, Paris, 1842, caxemira de superfície densa e lisa que mantém a forma durante anos. Delfino, de Biella, faz os tecidos double face, dois panos de lã tecidos num só, e um sobretudo feito com eles dispensa forro. E Caccioppoli, Nápoles, 1920, onde encontro cores que mais ninguém tem.

Há ainda a alpaca. Fazemos poucos, mas sempre com gosto: a fibra é oca por dentro, por isso aquece como caxemira, pesa menos e não borboto. O sobretudo de alpaca pura em espinha que fizemos em novembro de 2024 continua a ser um dos meus preferidos. E a lã com caxemira 90/10 dá o sobretudo mais sensato de todos: quase todo o calor da caxemira com o dobro da resistência ao uso diário, que é o que interessa a quem anda de casaco cinco dias por semana.

Sobretudo de alpaca pura em espinha, visto de costas
Alpaca pura em espinha. A meia-martingala nas costas segura a silhueta.
Sobretudo castanho em tecido double face Delfino
Tecido double face Delfino. O forro foi escolhido a condizer com o avesso.

A cor. Nesta temporada a Loro Piana mandou um azul profundo, bordô, esmeralda e areia, além do cinzento, do preto e do castanho. Para mim o primeiro sobretudo deve ser azul-escuro. O preto só fica bem com sapatos pretos, o camelo pede pele morena, e o azul vai com tudo e com todos, do smoking às sapatilhas. O segundo sobretudo já pode ser o que se quiser, esmeralda inclusive. Precisamente porque é o segundo: o primeiro tem obrigação de estar certo.

Que sobretudo escolher

O cruzado até ao joelho é hoje o mais pedido, e percebo porquê. Alarga os ombros, fica descontraído com as abas abertas e formal com elas fechadas, o que dá duas peças pelo preço de uma. O chesterfield clássico, direito, com a carcela tapada, aconselho a quem usa casaco por cima de fato todos os dias: não discute com as lapelas do que está por baixo. O caban, curto e cruzado, é para quem conduz e se cansou de entrar no carro com um casaco comprido enrolado nas pernas.

Caso à parte é o nosso jacket-coat em caxemira pesada da Scabal: casaco de fato no corte, sobretudo na função, fecha até acima. Foi pensado para os dias em que ainda é cedo para sobretudo e já é tarde para andar só de casaco, e em Lisboa esses dias não são quatro meses do ano, são quase o inverno inteiro.

Sobretudo cinzento de caxemira Loro Piana com cinto
Caxemira Loro Piana. Encomenda de dezembro de 2025.
Jacket-coat ATELIER 23 em caxemira Scabal
Jacket-coat em caxemira Scabal. Casaco no corte, sobretudo na função.

Quanto aos casacos de penas. São quentes, são leves, e eu próprio tenho um para andar na serra. Mas de casaco de penas você é apenas um homem de casaco de penas. De sobretudo, é alguém que decidiu como quer ser visto.

Sobretudo por medida: como funciona

Começa com uma primeira conversa de cerca de uma hora. Vemos os tecidos em corte, porque a caxemira tem de se tocar: as senhoras escolhem com os olhos e os senhores com as mãos, é uma frase que repito há dez anos e ainda ninguém a desmentiu. Tiramos as medidas e falamos de comprimento, largura da lapela, bolsos, e sobretudo de como vai usar o casaco: por cima de fato ou por cima de camisola, a pé ou ao volante. As respostas mudam o corte todo.

Depois o tecido segue para a nossa fábrica na Serra da Estrela, o ponto mais alto de Portugal, onde a lã é assunto sério desde o século XVIII e onde, por acaso feliz, faz mesmo frio. A primeira prova é umas semanas mais tarde e serve para acertar ombros e comprimento de manga; a seguir vem o casaco acabado. Do corte de tecido ao cabide são quatro a seis semanas, e é a única coisa em que sou chato: o sobretudo de inverno encomenda-se em setembro e o de meia-estação em fevereiro. Quem chega em dezembro recebe o casaco em fevereiro, e em Portugal fevereiro já é quase primavera.

Cliente ATELIER 23 de sobretudo cor de camelo
Camelo por cima de uma camisola de gola alta castanha. Um dos conjuntos preferidos da temporada.

Um sobretudo para vinte anos

O rei Carlos, ainda príncipe de Gales, usou os mesmos casacos durante décadas, mandando-os arranjar e trocando os forros. A imprensa britânica chamou-lhe cultura Sloane Ranger; eu chamo-lhe bom senso. Um sobretudo de caxemira ou de lã com caxemira dura quinze a vinte anos se for limpo uma vez por estação e guardado num cabide largo. Damos garantia a tudo o que fazemos, arranjamos e trocamos forros, e se a moda mudar, ou o dono mudar, encurtamos.

Um bom sobretudo é mais barato do que um mau. Só que se paga uma vez.

Sobretudo azul-escuro direito por cima de um fato ATELIER 23
Azul-escuro, direito, por cima do fato. A opção mais versátil para a cidade.
Sobretudo preto cruzado em caxemira ATELIER 23
Caxemira preta, cruzado. Para quem tem sempre os sapatos pretos.

Chegaram os tecidos novos desta temporada. São poucos cortes, cada um dá para alguns casacos, e quando acabam os seguintes só chegam na primavera. Estamos em setembro. Não vale a pena esperar por dezembro.

Perguntas antes de encomendar

Quanto tempo demora um sobretudo por medida?
Quatro a seis semanas do corte de tecido ao casaco acabado, com uma prova pelo meio. O sobretudo de inverno encomenda-se em setembro, o de meia-estação em fevereiro.

Que tecidos usam nos sobretudos?
Loro Piana, Dormeuil, Delfino e Caccioppoli: caxemira pura, lã com caxemira 90/10, alpaca e tecidos double face. Mostramos todos os cortes no atelier, porque a caxemira tem de se tocar.

Quanto custa um sobretudo por medida?
Os sobretudos começam nos 900 euros em lã e vão até cerca de 2 500 euros em caxemira pura. O preço final depende do corte de tecido escolhido e diz-se na primeira conversa.

Faz sentido ter um sobretudo em Lisboa?
Faz, e por duas razões. O inverno português tem doze graus com humidade e vento, que se sentem mais do que parecem, e a maior parte dos nossos clientes passa parte do inverno em Londres, Milão ou no norte do país.

Posso encomendar um sobretudo para usar com camisola e ganga, e não por cima de fato?
Sim, e nas últimas temporadas é a maioria das encomendas. A forma como usa o casaco decide o comprimento e a folga, por isso é a primeira coisa que perguntamos.

Onde fica o atelier ATELIER 23?
Avenida da Liberdade 110, escritório 209, em Lisboa. Visitas mediante marcação, todos os dias.

No catálogo: Vero Vest · City Safari Jacket

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Mostramos os cortes de Loro Piana, Dormeuil, Delfino e Caccioppoli, tiramos as medidas e damos-lhe um prazo. Os casacos prontos estão em outerwear e o processo está descrito em medida por medida. A visita demora cerca de uma hora e não obriga a nada.

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Avenida da Liberdade 110, escritório 209
1269-046 Lisboa
Visitas mediante marcação · +351 912 204 778
Com os melhores cumprimentos, Andrey Kostenko
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