O sobretudo. A única peça que se vê por inteiro
Porque é que numa cidade que quase não tem inverno o sobretudo é a peça mais visível do guarda-roupa, quantas cabras são precisas para um casaco de caxemira e por que razão se encomenda em setembro.

Em janeiro um cliente veio buscar um caban azul-escuro. Tecido Caccioppoli de Nápoles, double face: azul intenso do lado de fora, castanho-escuro do avesso, lã com dez por cento de caxemira. Por baixo da gola, dois botões para fechar o pescoço quando o vento sobe do rio ou quando se aterra em Milão em janeiro. Tive-o nas mãos antes da entrega e dei por mim a pensar que fizemos muitos mais fatos do que casacos ao longo destes anos, e no entanto são os casacos que ficam na memória.
A explicação é simples. O fato veem-no os colegas, o sobretudo por medida vê-o a cidade inteira. É a única peça do guarda-roupa masculino que um desconhecido vê por inteiro, da gola à bainha, antes de você ter dito bom dia. Tudo o resto está tapado ou meio aberto. O sobretudo trabalha por si a cem metros de distância. É por isso que lhe damos mais atenção do que a qualquer outra coisa que fazemos.
Lisboa não é uma cidade fria. É por isso que o sobretudo conta
Quem vem de fora ri-se quando um lisboeta diz que está frio em janeiro. Doze graus não é frio em lado nenhum da Europa. Só que doze graus com humidade alta, vento do Atlântico e casas construídas para o verão dão uma sensação térmica que qualquer sueco reconhece. O inverno português é curto, molhado e mais desconfortável do que os números sugerem, e tem uma consequência prática: aqui ninguém precisa de cinco casacos. Precisa de um que esteja certo.
E depois há a outra metade da vida dos nossos clientes, que é passada fora. Londres em novembro, Milão em janeiro, Zurique em fevereiro, uma semana no Douro quando gela de manhã. Um sobretudo de lã com caxemira resolve Lisboa e resolve o norte da Europa. É a peça com o maior alcance geográfico que um homem pode ter.

Porque é que o sobretudo voltou
Nos últimos vinte anos o guarda-roupa masculino perdeu primeiro a gravata, depois o casaco obrigatório, e a certa altura até as calças com vinco. O sobretudo ficou. Funciona aqui uma regra antiga: quanto menos peças formais um homem tem em cima, mais peso ganha a que sobrou. Quando toda a gente andava de fato, o sobretudo era só a camada de cima. Quando por baixo há uma camisola e umas calças de ganga, o sobretudo passa a ser o único sítio onde ainda se vê corte.
Ele sobreviveu ao redingote, à capa, ao macintosh, ao duffle coat de Dunquerque, à gabardina de couro dos anos noventa e, ao que parece, também ao código de vestuário das videochamadas. Porque é que o chesterfield, desenhado para um conde nos anos quarenta do século XIX, se continua a fazer quase sem alterações. Porque é que o caban dos marinheiros holandeses é usado por gente que nunca pisou um convés. Porque é que a trench, cortada para as trincheiras da Primeira Guerra, se tornou a peça mais pacífica que existe. Porque as três foram primeiro necessárias e só depois bonitas. Uma forma que nasce de um problema não envelhece.
O fato veem-no os colegas. O sobretudo vê-o a cidade.ATELIER 23
Vinte cabras para um sobretudo
Aqui começa a parte deste trabalho de que mais gosto. A cabra de caxemira vive em planalto de alta montanha, onde o inverno chega aos quarenta graus negativos, e dá por ano cerca de cento e cinquenta gramas de penugem fina quando é penteada. Um sobretudo leva a penugem de cerca de duas dezenas de cabras. A fibra tem à volta de quinze mícrones de espessura; um cabelo humano tem cinco vezes mais. Daí o paradoxo central da caxemira: quanto mais fina é, mais aquece.
Trabalhamos com quatro casas. Loro Piana, do Piemonte, fundada em 1924, caxemira pura e tecidos com Storm System, uma membrana fina do avesso que faz o casaco atravessar uma tarde de chuva sem se encharcar. Dormeuil, Paris, 1842, caxemira de superfície densa e lisa que mantém a forma durante anos. Delfino, de Biella, faz os tecidos double face, dois panos de lã tecidos num só, e um sobretudo feito com eles dispensa forro. E Caccioppoli, Nápoles, 1920, onde encontro cores que mais ninguém tem.
Há ainda a alpaca. Fazemos poucos, mas sempre com gosto: a fibra é oca por dentro, por isso aquece como caxemira, pesa menos e não borboto. O sobretudo de alpaca pura em espinha que fizemos em novembro de 2024 continua a ser um dos meus preferidos. E a lã com caxemira 90/10 dá o sobretudo mais sensato de todos: quase todo o calor da caxemira com o dobro da resistência ao uso diário, que é o que interessa a quem anda de casaco cinco dias por semana.


A cor. Nesta temporada a Loro Piana mandou um azul profundo, bordô, esmeralda e areia, além do cinzento, do preto e do castanho. Para mim o primeiro sobretudo deve ser azul-escuro. O preto só fica bem com sapatos pretos, o camelo pede pele morena, e o azul vai com tudo e com todos, do smoking às sapatilhas. O segundo sobretudo já pode ser o que se quiser, esmeralda inclusive. Precisamente porque é o segundo: o primeiro tem obrigação de estar certo.
Que sobretudo escolher
O cruzado até ao joelho é hoje o mais pedido, e percebo porquê. Alarga os ombros, fica descontraído com as abas abertas e formal com elas fechadas, o que dá duas peças pelo preço de uma. O chesterfield clássico, direito, com a carcela tapada, aconselho a quem usa casaco por cima de fato todos os dias: não discute com as lapelas do que está por baixo. O caban, curto e cruzado, é para quem conduz e se cansou de entrar no carro com um casaco comprido enrolado nas pernas.
Caso à parte é o nosso jacket-coat em caxemira pesada da Scabal: casaco de fato no corte, sobretudo na função, fecha até acima. Foi pensado para os dias em que ainda é cedo para sobretudo e já é tarde para andar só de casaco, e em Lisboa esses dias não são quatro meses do ano, são quase o inverno inteiro.


Quanto aos casacos de penas. São quentes, são leves, e eu próprio tenho um para andar na serra. Mas de casaco de penas você é apenas um homem de casaco de penas. De sobretudo, é alguém que decidiu como quer ser visto.
Sobretudo por medida: como funciona
Começa com uma primeira conversa de cerca de uma hora. Vemos os tecidos em corte, porque a caxemira tem de se tocar: as senhoras escolhem com os olhos e os senhores com as mãos, é uma frase que repito há dez anos e ainda ninguém a desmentiu. Tiramos as medidas e falamos de comprimento, largura da lapela, bolsos, e sobretudo de como vai usar o casaco: por cima de fato ou por cima de camisola, a pé ou ao volante. As respostas mudam o corte todo.
Depois o tecido segue para a nossa fábrica na Serra da Estrela, o ponto mais alto de Portugal, onde a lã é assunto sério desde o século XVIII e onde, por acaso feliz, faz mesmo frio. A primeira prova é umas semanas mais tarde e serve para acertar ombros e comprimento de manga; a seguir vem o casaco acabado. Do corte de tecido ao cabide são quatro a seis semanas, e é a única coisa em que sou chato: o sobretudo de inverno encomenda-se em setembro e o de meia-estação em fevereiro. Quem chega em dezembro recebe o casaco em fevereiro, e em Portugal fevereiro já é quase primavera.

Um sobretudo para vinte anos
O rei Carlos, ainda príncipe de Gales, usou os mesmos casacos durante décadas, mandando-os arranjar e trocando os forros. A imprensa britânica chamou-lhe cultura Sloane Ranger; eu chamo-lhe bom senso. Um sobretudo de caxemira ou de lã com caxemira dura quinze a vinte anos se for limpo uma vez por estação e guardado num cabide largo. Damos garantia a tudo o que fazemos, arranjamos e trocamos forros, e se a moda mudar, ou o dono mudar, encurtamos.
Um bom sobretudo é mais barato do que um mau. Só que se paga uma vez.


Chegaram os tecidos novos desta temporada. São poucos cortes, cada um dá para alguns casacos, e quando acabam os seguintes só chegam na primavera. Estamos em setembro. Não vale a pena esperar por dezembro.
Perguntas antes de encomendar
Quanto tempo demora um sobretudo por medida?
Quatro a seis semanas do corte de tecido ao casaco acabado, com uma prova pelo meio. O sobretudo de inverno encomenda-se em setembro, o de meia-estação em fevereiro.
Que tecidos usam nos sobretudos?
Loro Piana, Dormeuil, Delfino e Caccioppoli: caxemira pura, lã com caxemira 90/10, alpaca e tecidos double face. Mostramos todos os cortes no atelier, porque a caxemira tem de se tocar.
Quanto custa um sobretudo por medida?
Os sobretudos começam nos 900 euros em lã e vão até cerca de 2 500 euros em caxemira pura. O preço final depende do corte de tecido escolhido e diz-se na primeira conversa.
Faz sentido ter um sobretudo em Lisboa?
Faz, e por duas razões. O inverno português tem doze graus com humidade e vento, que se sentem mais do que parecem, e a maior parte dos nossos clientes passa parte do inverno em Londres, Milão ou no norte do país.
Posso encomendar um sobretudo para usar com camisola e ganga, e não por cima de fato?
Sim, e nas últimas temporadas é a maioria das encomendas. A forma como usa o casaco decide o comprimento e a folga, por isso é a primeira coisa que perguntamos.
Onde fica o atelier ATELIER 23?
Avenida da Liberdade 110, escritório 209, em Lisboa. Visitas mediante marcação, todos os dias.
No catálogo: Vero Vest · City Safari Jacket
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Mostramos os cortes de Loro Piana, Dormeuil, Delfino e Caccioppoli, tiramos as medidas e damos-lhe um prazo. Os casacos prontos estão em outerwear e o processo está descrito em medida por medida. A visita demora cerca de uma hora e não obriga a nada.