Como é feito um fato à medida no ATELIER 23
O que acontece a um fato nas seis semanas entre o corte de tecido em cima da mesa da Avenida da Liberdade e a primeira prova, porque é que se faz na Serra da Estrela e para que serve o número que cada peça leva.

Como é feito um fato à medida começa com uma cena muito simples: um homem sentado a uma mesa na Avenida da Liberdade, com os livros de amostras à frente, a tocar no tecido. Ver, vê-se num catálogo. Tocar, só aqui. Nesse momento decide-se mais do que em qualquer prova, porque o tecido escolhe-se uma vez e usa-se quinze anos. Tudo o resto, o molde, a fábrica, a prova, é a tradição de que trata este artigo.
Tradição é aqui a palavra certa. O casaco que fazemos em 2026 está construído como um casaco de Savile Row de 1900: tela no peito, casa de lapela feita à mão, manga montada ao ombro. Mudou uma coisa só, e é o ombro. Fomos buscá-lo a Nápoles, mole e sem chumaço, porque o cliente de um atelier hoje passa mais tempo sentado, ao volante e em voos do que de pé.
Savile Row e Nápoles: duas escolas do mesmo ofício
A escola inglesa nasceu das fardas militares. A Henry Poole & Co abriu em Savile Row em 1806, e a estrutura do seu casaco continua a mesma: tela de peito densa, ombro definido, linha de peito que se aguenta sozinha. Um casaco assim faz de qualquer homem um oficial. A escola napolitana, Rubinacci, Attolini, Kiton, Caraceni, fez no século XX o contrário: tirou do casaco tudo o que atrapalha o movimento e deixou o trabalho manual onde ele se vê. O ombro spalla camicia é montado com pequenas pregas, como uma manga de camisa, e acompanha o braço.
Escolhemos o segundo, e é uma escolha do cliente com a qual o alfaiate concordou. Com um casaco napolitano conduz-se e abraça-se, e depois da reunião ele está como estava antes dela. É por isso que Nápoles é a referência de quem usa fato todos os dias.


A oficina na Serra da Estrela
A nossa oficina fica na Serra da Estrela, onde a lã se fia e se cose há séculos e onde, por acaso conveniente, faz mesmo frio. Em Biella conhecem bem esta região: é para aqui que vêm os tecidos da Loro Piana, da Vitale Barberis Canonico e da Zegna, e é aqui que se cose para casas italianas cujas etiquetas toda a gente reconhece. Os mestres portugueses juntam duas coisas que raramente andam juntas: a precisão de uma fábrica e as mãos de um atelier.
Porque é que não cosemos em Itália, onde estão os tecidos. Porque o mesmo trabalho custa lá bastante mais, e quem acaba a pagar a diferença é o cliente. Portugal dá qualidade italiana a um preço honesto, e a distância entre a mesa onde se escolhe o tecido e a mesa onde ele é cortado é de umas horas de estrada, o que significa que uma correção não custa três semanas de correio. É a vantagem que consideramos a nossa principal, e é uma vantagem que só existe por sermos daqui.


Os tecidos
Em cima da mesa do atelier estão os livros da Loro Piana, da Vitale Barberis Canonico, da Dormeuil, da Scabal e da Caccioppoli. Para um fato de trabalho aconselhamos lã Super 120's ou 130's: mais fino é bonito na mão, mas vive pior num assento de avião. Para o inverno, flanela e tweed; para o verão, linho com lã e algodão; para a noite, barateia e mohair. Dizemos o nome do tecido e o preço ao mesmo tempo, para que a escolha seja feita de olhos abertos.
As malhas tricotamo-las com fio Zegna Baruffa: Cashwool e SuperGelong, um merino extrafino que ao toque se confunde com caxemira. São as mesmas fábricas de Biella que tecem para os fatos, só que em fio.


Como decorre uma encomenda
Total: quatro a seis semanas e uma prova. Uma, porque o molde é construído sobre a figura de antemão e na prova só resta verificar e acertar. Os clientes que já encomendaram noutros sítios costumam estranhar que não seja precisa uma segunda.


Controlo de qualidade e o número na etiqueta
Cada peça ATELIER 23 tem o seu número. Por ele guardam-se na oficina o molde e o lote de tecido, e anos depois é possível encomendar um segundo fato igual. Antes de sair, a peça acabada é verificada da qualidade das costuras ao assentamento: a coincidência da risca nas costuras, as casas, a maneira como o forro assenta na manga. Um fato que não passa a verificação não segue para o atelier.
Coleção pronta e feito por medida
No atelier há uma coleção pronta de fatos, casacos, calças, camisas e malhas, cosida na mesma oficina e com os mesmos tecidos. Uma peça pronta ajusta-se à figura em uma a duas semanas, e isso está incluído no preço. E há o feito por medida, a partir de qualquer corte que esteja na mesa. A diferença entre os dois é uma só: um fato pronto ajusta-se a si, e um fato por medida foi feito para si desde o princípio.
O tecido escolhe-se uma vez e usa-se quinze anos.ATELIER 23
Perguntas antes de encomendar
Quanto tempo demora um fato por medida no ATELIER 23?
Quatro a seis semanas com uma prova. A primeira conversa demora cerca de uma hora e a prova faz-se em Lisboa na quarta semana.
Onde são feitos os fatos ATELIER 23?
Na nossa oficina na Serra da Estrela, com tecidos Loro Piana, Vitale Barberis Canonico, Dormeuil, Scabal e Caccioppoli.
Qual é a diferença entre o corte napolitano e o inglês?
Ombro mole sem chumaço, tela leve e liberdade de movimento. O casaco inglês segura a forma sozinho, o napolitano acompanha a figura.
Quantas provas são necessárias?
Uma. O molde é construído previamente a partir das medidas e das fotografias, e na prova acertam-se ombro, comprimento, cintura e posição dos bolsos.
É possível repetir um fato anos depois?
É. Cada peça tem um número, e por ele ficam guardados na oficina o molde e o lote de tecido.
Onde fica o atelier ATELIER 23?
Avenida da Liberdade 110, escritório 209, em Lisboa. Visitas mediante marcação, todos os dias.
Marcar uma visita ao ATELIER 23
Mostramos os tecidos em corte e em livros de amostras, os fatos prontos nos manequins e um casaco em alinhavo, para que veja como decorre uma prova. Tiramos as medidas e damos-lhe preço e prazo. A visita demora cerca de uma hora e não obriga a nada.